Fotos Festa Rei dos Mares e chegada a Timor
Publicada por Filipe Vieira à(s) quarta-feira, setembro 15, 2010É com enorme prazer que partilho com todos os seguidores deste blog esta maravilhosa foto que me foi enviada pelo autor da mesma, Sr.Rui Fernandes e esposa, a quem agradeço as palavras que em baixo partilho com todos.
Muito obrigado.
(Clicar na foto para ampliar)
Depois de um dia a visitar o Museu de Xangai, e de escaparmos a uma tremenda chuvada como pudemos perceber pelos visitantes encharcados que lá iam entrando, no regresso ao nosso hotel decidimos tentar ver a panorâmica nocturna de Pudong a partir de um dos hotéis do lado oposto, o "Hyatt On The Bund"
A panorâmica é, de facto, espantosa. Quando me preparava para fotografar, a minha esposa chamou-me a atenção para um barco atracado muito próximo do Hyatt, em primeiro plano. Parecia mesmo a "nossa" Sagres... e depois vimos a bandeira Portuguesa! Era mesmo a Sagres!
Não é possível descrever a emoção e a felicidade de ver um bocadinho do nosso país ali mesmo à nossa frente.
Curiosamente, a minha esposa descobriu depois, já em Portugal, que foi nesse mesmo dia que a Sagres atracou no porto de Xangai, e que a chuvada descrita no blog foi a tal a que escapámos enquanto estávamos a visitar o Museu.
Penso que não será possível esquecer este momento, um dos mais altos da nossa visita à China, obrigado!
Rui e Dora

Eram 18:00 do dia 4 de Set. quando o som potente da sereia de bordo ecoa por todo o navio, estamos a passar dos 0 graus de latitude, terceira vez que transpomos a linha do Equador. No dia seguinte, mais uma vez se fez cumprir as tradições navais, pois estavam a bordo quatro intrusos, que nunca tinham ultrapassado a famosa linha do Equador. Mais uma vez a corte do Rei Neptuno subiu a bordo, mais um julgamento se iniciou, os réus foram condenados e multados, com coimas de caixas de néctar com o nome da Barca e garrafas do melhor malte de bordo.
As primeiras horas da manhã do dia 7 de Set. avistamos pela primeira vez Timor Leste, a ilha Atáuro onde permanecemos a pairar durante dois dias a fim de preparar o navio para atracar em Díli, dia 12 de Setembro, três dias antes do que estava previsto no planeamento. No dia nove, entramos no porto que serve Díli onde fundeamos durante algumas horas a fim de embarcar alguns militares Timorenses que irão navegar, durante os próximos dias a bordo da Barca, uma forma de dar a conhecer a vida a bordo de um navio da Republica Portuguesa, e poderem ganhar alguma experiencia com tão bravos e ilustres marinheiros. Depois de suspender e sair do porto, começamos a caçar pano, para desfraldar orgulhosamente as cruzes de Cristo ao vento, para espanto dos jovens militares, que momentos antes tinham embarcado. Dia dez, pela manhã aproximamo-nos do enclave Oe-Cussi, onde fundeamos e iremos permanecer até ao fim do dia.
Timor leste ocupa pouco mais de metade da ilha de Timor, incluindo o enclave de Oe-Cussi, a ilha de Ataúro e o ilhéu de Jaco, num total de cerca de 19000Km2, numa área semelhante à do Alentejo. Fica distanciado de Portugal cerca de 16000 km, 3300 de Macau, e 430 de Darwin.
Com a conquista de Malaca, em 15 de Agosto de 1511, abriram-se aos Portugueses as portas das famosas ilhas das especiarias e de Timor, e onde provinha o sândalo muito apreciado no Oriente. Não foi possível, até hoje, fixar a data nem o autor da descoberta; Timor terá sido citado pela primeira vez em 6 de Janeiro de 1514; numa carta em que Rui de Brito fala da ilha D. Manuel I. Assim é geralmente aceite que a descoberta de Timor pelos portugueses se efectuou entre 1512 e 1520, possivelmente em resultado de uma das muitas viagens dos navios portugueses por aquelas paragens.
No final do século têm inicio as lutas com os Holandeses, que disputavam a posse das ilhas das Flores e Solor e também de Timor, no mesmo arquipélago. Apesar de um tratado de tréguas assinado em Lisboa em 1641, em 1651 os Holandeses tomaram Kupang. Os problemas latentes entre Portugueses e Holandeses reacendem-se em 1818 e terminam com o tratado assinado em 1851 em que Portugal, cedeu à Holanda as ilhas de Flores e Solor, recebendo em troca o enclave de Maubara.
Entretanto em 1844, Macau e Timor passaram a constituir um governo independente da Índia, e em 1896, Timor ficou independente de Macau. Aproveitando a perturbação da implementação da Republica em 1910, os Holandeses, fizeram-se sentir de novo em Timor, incitando as populações à revolta. A Segunda Guerra Mundial teve reflexos intensos em Timor. Em 1941 um contingente de tropas Holandesas e Australianas desembarcou em Timor, ao mesmo tempo que na costa norte desembarcavam os Japoneses, com os quais desencadearam violentos combates.
Durante a ocupação que durou de Fevereiro de 1942 a Setembro de 1945, só a 13 de Setembro de 1945 as tropas Japonesas foram derrotadas. A 29 de Setembro de 1945 chegam a Timor os avisos da Armada Portuguesa; Bartolomeu Dias e Gonçalves Zarco, transportando tropas restaurando assim a soberania plena de Portugal.
Até 25 de Abril de 1974, Timor era o território mais esquecido do nosso ultramar, onde 75% da população era analfabeta.Com o golpe do 25 de Abril, o programa do MFA apresentado para Timor sustentava alguma indefinição. Em Timor aparecem as associações políticas; UDT; FRETILIN; APODETI; KOTA. Lisboa tem uma grande indefinição demasiado prolongada na política de descolonização para Timor. Na madrugada de 11 de Agosto de 1975, a UDT com alguma pressão de Jacarta e temendo eleições face às inclinações para a doutrina comunista por parte de FRETILIN, faz um golpe armado e tenta controlar o território recebendo da FRETILIN uma resposta que deu origem ao “Verão quente em Timor”.
A representação Portuguesa refugia-se na ilha de Ataúro evacuando Dili; a guerra civil avassala Timor Leste. Aproveitando a desordem no território, no dia 7 de Dezembro de 1975, forças Indonésias desembarcam em Díli apoderando-se do território.
Em 17 de Julho de 1976, o parlamento Indonésio aprovou por unanimidade Timor Leste como a 27ª província Indonésia. Perante a ONU, nunca foi reconhecido qualquer direito á Indonésia, Timor era visto como território não autónomo de jurisdição Portuguesa.
Durante estes anos a Indonésia espalhou o terror em Timor, retirando ao seu povo as suas raízes, a sua cultura e matando os seus filhos.
Timor-Leste é a mais novo estado da Ásia, proclamando-se nação no dia 20 de Maio de 2002.

Hoje dia 4 de Setembro é um dia especial para um não menos especial marujo desta ilustre Barca. Algures em Almada, está-se a celebrar o seu matrimónio. Camarada Afonso, para ti para a tua esposa, em nome de toda a guarnição, desejamos-te que tenhas aquele dia que sempre ambicionaste, muitas felicidades e que as pré-nupcias te corram ás mil maravilhas, nós cá te esperamos de volta.
A bordo os dias sucedem-se serenamente, ao sabor da rotina diária, hoje dia 3 de Setembro, continuamos a avançar rumo a Timor-Leste, nesta que é uma das maiores tiradas da viagem. Depois de nos termos livrado da fúria de três tufões (com alguma sorte, mas sorte protege os audazes!) no mar do sul da China, permanecemos a navegar para sul, onde durante alguns dias navegamos junto do arquipélago das Filipinas, sempre por bombordo. País formado por um arquipélago com 7100 ilhas, situado no oeste do Oceano Pacifico, tem como capital Manila. Durante o fim-de-semana, onde fomos fustigados por fortes aguaceiros e alguma agitação do mar, o que provocou estragos numa das velas de proa (bujarrona de dentro), situação que levou os marinheiros do Gurupés a terem trabalho extra durante todo o Domingo. A semana começou tranquila, e devido á tirada ser longa, as secções aproveitam para executar alguns dos serviços mais morosos, como tratamento de madeiras (vernizes), o tempo esse, não tem colaborado para realização deste tipo de trabalhos, devido aos muitos aguaceiros que ocorrem nestas latitudes, durante esta época do ano, efectua-se também alguns trabalhos de marinharia que requerem alguma e destreza e perspicácia dos marinheiros mais antigos. Também se aproveita para executar alguns exercícios como, avaria no leme, exercício de homem ao mar, exercício de defesa própria do navio contra ataques de presumíveis piratas. Durante a tarde de quarta-feira, mais uma vez o navio este aberto a banhos nestas águas tépidas (28o) desta zona do globo, à noite ouve um jantar convívio no poço para toda a guarnição. Navegamos agora em águas que banham a Indonésia, país do sul da Ásia, constituído por 13 677 ilhas (das quais 6 000 não são habitadas), Indonésia é o maior arquipélago do mundo, a capital é Jarcata, próxima paragem depois de Dili.
Nesta etapa da nossa viagem aproximamo-nos de uma zona onde é preciso tomar precauções contra a Malária. Doença que se transmite pela picada de mosquitos que provoca febres muito elevadas, acima dos 40o, onde pode provocar a morte. Hoje o serviço de saúde começou a realizar a profilaxia que consiste na toma de 1 comprimido uma semana antes de chegar a zona endémica, mantendo essa toma semanal até quatro semanas depois de sair da zona endémica.
No inicio do mês de Setembro tínhamos percorrido 25 514 milhas (47 251 km), sendo 19 114 milhas a motor e 6 400 a vela perfazendo 3 434 horas de navegação, faltando hoje dia 3 Set. 110 dias para chegarmos ao porto mais aguardado de toda a viagem, o porto da bela cidade de Lisboa.

Dia 26 de Agosto, os dias ocorrem tranquilamente, ao sabor deste mar calmo, que praticamente nos tem acompanhado ao longo de toda a missão, temperaturas muito agradáveis, onde os marinheiros aproveitam o muito sol para se bronzearem na praia do castelo. Navegamos á três dias, rumo a sul, onde já percorremos 552 milhas, desta longa tirada de 2600 milhas, que nos levará a Timor-Leste, onde está previsto atracar dia 15 de Setembro. Ao longo da tirada, onde iremos transpor pela terceira vez a linha do Equador, agora do hemisfério norte para o hemisfério sul, onde passaremos pelos mares, Amarelo, Mar do Leste da China, Estreito de Taiwan, Mar do Sul da China, Estreito Mindoro, Mar Sulu, Mar Celebes, Mar das Mollucas e por fim já perto de Timor pelo Mar de Banda. Mares estes, que têm alguma perigosidade devido a acção de alguma pirataria que vai ocorrendo por estas paragens, o que levou a que a nossa equipe de fuzileiros que levamos a bordo, entrassem em acção, com vigias regulares ao longo de todo o navio a fim de manter a segurança da “Barca”, de um presumível ataque vindo do exterior. Após a saída de Xangai, onde se desfrutou de uma alvorada surda, retomámos a rotina diária, e porque a tirada vai ser longa, aproveita-se durante as manhãs, período onde ocorrem os serviços, para realizar alguns trabalhos mais complexos e morosos.
É meia-noite, depois de algumas horas de descanso, entro novamente de serviço, apitou a rendição, entra de quarto o segundo quarto, hoje é dia de fazer mineirada (00:00 ás 08:00), como é hábito de três em três noites. Vai ser uma noite longa mas calma pois não levamos pano caçado, excepto as mezenas, noite de lua cheia, com um magnífico luar, lá longe no horizonte de quando em vez vê-se relampejar, talvez ao longo da noite a chuva venha ao nosso encontro. Manhã do dia 27, nasceu no céu com um sol resplandecente, e com o vento favorável para caçar pano. Às 08:30, apita a faina geral de mastros, para caçar todo o pano. Mais um dia começa nestes mares longínquos, dia como tanto outros a bordo da admirável “Barca”, nesta não menos admirável missão a volta do mundo.
Aqui vos deixo um video realizado e editado a bordo do Navio Escola Sagres. Um pouco daquilo que tem sido o nosso dia-a-dia, bem como alguns dos locais de passagem durante esta nossa viagem.
Agradeço ao Mar Nuno Pinto que foi a pessoa que realizou este fantástico video.