...e ao ver-te Lisboa Lisboa...

Tirada para Lisboa

Até já.......


22 De Dezembro, continua o impasse em relação ao dia e a hora de atracação, devido as condições do mar, nas melhores das hipóteses atracaremos no final da tarde de amanhã. Depois de longos meses, finalmente entrámos em águas nacionais, navegamos a sul do Algarve estando previsto dobrar o cabo de Sagres no inicio da madrugada de hoje. A adrenalina começa a fluir com a contagem decrescente para a atracação, a ansiedade é muita, pois estamos a poucas horas, do tão esperado reencontro com aqueles que mais amamos. Durante 338 dias á volta do mundo, na maior missão de sempre efectuada pelo Navio Escola Sagres, onde ostentamos orgulhosamente a cruz de Cristo por esse mundo fora, onde fomos embaixadores do bom nome de Portugal por 27 portos em três continentes, navegando 39 112 milhas (72 435 km), perfazendo 5405 horas de navegação sendo 27% feitas a vela. Está a chegar ao fim esta odisseia a volta do mundo, que seguramente foi uma experiencia única que jamais irei esquecer, ao longo destes onze meses onde foi um acumulado de memórias intensas onde faço um balanço final. O carnaval no Brasil, sem duvida um espectáculo dentro do espectáculo onde um dia quero regressar, Buenos Aires onde assisti no lendário” Bonera” o jogo do Boca Juniors-Racing, a participação na Regata Bicentenário que nos levou a locais onde nunca antes tinha estado um navio da República Portuguesa, navegamos nos canais da inóspita Patagónia onde deslumbrámos os seus gélidos glaciares, dobramos o mítico Cabo Horn estando no estremo mais a sul do mundo, San Diego o reencontro com aquela pessoa especial, um carregar de baterias para a segunda parte da viagem, cruzamos todo o Oceano Pacifico passando pelas ilhas paradisíacas do Hawai, para atracar no super organizado Japão, Dili uma agradável surpresa desta ex. colónia portuguesa, onde reencontramos a óptima gastronomia lusitana, Tailândia na cidade de Banguecoque para muitos o melhor porto de toda a viagem, por fim o Egipto local onde se fica deslumbrado com a sua historia, são estes alguns dos locais que ficam gravados na minha memória. Para mim foi com enorme prazer que ao longo destes onze meses, onde pude contar algumas das peripécias vividas a bordo da “Barca”, tentar mostrar os locais que visitávamos, por vezes com muitas dificuldades em aceder a internet (super lenta). Chega assim ao fim esta odisseia, não me vou despedir, porque não gosto de despedidas, mas deixo um “Até já…”, pois este espaço fica em aberto para todos os amantes da nossa magnifica “BARCA”, mais viagens se avizinham. Aproveito o momento, para desejar um Feliz Natal e Próspero Ano Novo a todos aqueles que ao longo destes onze meses acompanharam esta viagem com entusiasmo. ATÉ JÀ…

Que ansiedade... está quase, quase !!







RUMO A CASA…


Sexta-feira 17 de Dezembro, numa tarde gélida a chuva cai intensamente, o vento sopra gelado de sudoeste. Começou com uma manhã ainda pior, continuamos a nossa batalha contra condições atmosféricas nada favoráveis para atingir a nossa velocidade ideal (7.8 nós) por agora, para manter a previsão de chegada a Lisboa, dia 23 ás 11:00. Para o fim, sua majestade o Rei Neptuno, está-nos a dificultar a missão, mas contra sua vontade na manhã do dia 23 de Dezembro a “Barca” entrará gloriosa no Rio Tejo, depois de 11 longos meses, a mostra o bom nome de Portugal por esse mundo fora. São agora 13:00, por nosso bombordo encontra-se a Tunísia, navegamos a uma velocidade 8.6 nós ao rumo de 315, o pessoal de quarto a manobra faz os possíveis e impossíveis para tornar o vento um aliado neste nosso objectivo em vez de um inimigo, mas não está a ser fácil.
Mas podem ter a certeza de que todos os marujos desta “Barca” estão a fazer tudo por tudo, a entregar cada força do seu corpo por tentar cumprir a data prevista para passar um Natal, junto daquelas pessoas que lhes são queridas e amadas.

Estamos em contagem decrescente.......







ÚLTIMA TIRADA


Manhã do dia 10 de Dezembro, nasceu fria com algum vento céu nublado, os marinheiros começam acordar lentamente, a boa disposição impera nos rostos ensonados daqueles que estão a poucos dias de fazer história, 2250 são as milhas que faltam para completar a “Volta ao Mundo”. Após o pequeno-almoço, formatura geral as 08:15, onde foi comunicado que a previsão de chegada a Base Naval de Lisboa se mantinha dia 23 às 11:00, e tinha sido cancelada a atracação em Argel. Depois de preparar o navio para navegar, desmontar a iluminação de gala, arriar vergas, brecear, montar escotas, etc. o trivial de um dia de desatracação, às 09:40 soa o apito do mestre do navio, faina geral, os marujos ocupam os postos de faina. Após algum tempo de espera pelo piloto, começaram a ser recolhidas as espias uma a uma, permitindo que o navio lentamente se afaste do cais, rumo ao porto mais aguardado por todos. A ansiedade é muita, pois são onze longos meses de muita saudade daqueles que nos viram partir, naquela manhã fria de Janeiro.
Nos próximos dias iremos cruzar todo o Mar Mediterrâneo, mar que se estende desde o Oceano Atlântico, a oeste, até a Ásia, a leste e separa a Europa de África, tem um comprimento de 3700 km e abrange uma área de 2 966 000 kmo . Está ligado pelo Estreito de Gibraltar, que separa a Espanha de Marrocos, ao Oceano Atlântico. Liga-se ainda ao Mar Vermelho e ao Oceano Indico pelo Canal do Suez, a nordeste, ao Mar Negro através do Estreito dos Dardanelos, e ao mar de Marmara pelo Estreito de Bósforo. Ao Mar Mediterrâneo pertencem ainda os mares Adriático, Egeu, Jónico e o Terreno. O mar mediterrânico é mais salgado e quente que o Atlântico, e praticamente não tem marés, o que leva a acumulação de matérias tóxicas nas águas costeiras, sendo um mar densamente poluído, este problema afecta gravemente o ecossistema marítimo e também o turismo. Vivem ao longo da sua costa cerca de 100 milhões de pessoas.
Ao fim de praticamente onze meses, chegou o mau tempo, estava guardado para a última tirada. Ao entrar no mediterrâneo, e como já se previa, mar com ondulação forte por vezes atingir 8 metros de altura e vento com rajadas superiores a 100 km/h. Vento este que já provocou sérios estragos no velame do navio (pano latino). Este estado do mar não é novidade para os mais antigos, pois já navegaram em condições semelhantes e por vezes piores, ao longo da sua vida no mar, já para os mais novos é como se fosse uma espécie de baptizo de mar, o verdadeiro baptizo, pois é aqui que se vê o estofo dos que realmente merecem ser chamados de “marinheiros”, mas há previsão de melhoria de tempo para o dia de amanha, mais precisamente ao final da tarde, no entanto não devemos baixar a guarda, é que para hoje a noite prevêem-se ainda piores condições.